[ a m a r g o s ]
Quando era pequena, lá em casa, todos me diziam como eu era boazinha. Antes de decorar a tabuada, eu já tinha minhas responsabilidades. Até hoje me lembro, com assombro, da minha primeira menstruação. Algo denso escorrendo em meio à brincadeira. Eu ainda tinha minhas Barbies para viver histórias, mas, como um vento forte que fecha janelas, fecharam a minha infância. Acho que sou um amontoado de nãos, de silenciamentos. Sempre partilhando, sempre doando, sempre no meio. Tô no baile da vida e sigo sentada na pior cadeira, nunca tirada para uma dança, para uma risada, para um abraço. Já perdi as contas de quantas pessoas invadiram a minha vida e saquearam tudo. E, depois de um tempo, lá estava eu me organizando, me catando, tentando encher as prateleiras, mas sempre tem novos assaltos. Sei que vou levantar, mas, desta vez, me pergunto: de que jeito vou ficar de pé?